domingo, 29 de maio de 2011

Fazendo cera

Ceras, isoladas ou associadas a outras substancias, tem sido empregadas para inumeras aplicacoes em praticamente todos os campos de atividade humana, desde a pre-historia. De fato, nos primeiros textos e nas primeiras obras de arte de que se tem registro utilizou-se cera de abelhas. No escopo desta postagem entretanto, vamos nos focar a alguns comentarios sobre o emprego das ceras com foco mais enderecado `as areas afeitas a seu uso no polimento de madeiras, e seu preparo domestico.

Quimicamente, as ceras sao substancias pouquissimo reagentes, quase inertes. Do ponto de vista fisico, sao maleaveis `a temperatura ambiente, e se derretem a temperaturas relativamente baixas em um liquido de baixa viscosidade; sao insoluveis ou pouquissimo soluveis, exceto em solventes nao-polares fortes, e eventualmente so a quente. A caracteristica fisica, altamente pertinente a marceneiros, que as singularizam  e' que aderem fortemente a praticamente qualquer substrato, mas quase nada a si mesmas.

Em funcao dessa sua peculiar caracteristica, aderem `a madeira com rara tenacidade. Aderem tanto que, apos aplicadas, a unica maneira de remove-las e' removendo igualmente a camada superficial do material onde foram aplicadas, com lixamento por exemplo. Como pouco, quase nada, aderem a si mesmas, podem ser polidas ate uma camada muito fina, quase totalmente transparente, muito lisa e extremamente facil de ser limpa: um grao de po caindo sobre a camada de cera tendera a se aderir a ela; como a aderencia da cera com cera e' quase inexistente, qualquer coisa, um simples passar um pano, removera o po com extrema facilidade. Como sao insoluveis `a agua, impermeabilizam a superficie que recobrem; sua inercia quimica as tornam uma barreira efetiva a reativos e pouco ou nada sensiveis `a passagem do tempo. E sao facilimas de retocar: nao e' preciso qualquer preparo alem de passar um pano seco e entao basta aplicar outra camada, polir, e pronto.

Ha ceras naturais — de origem animal, vegetal e mineral — e mais recentemente sinteticas, usualmente fabricadas utilizando polimeros de fragmentacao do polietileno. Ceras tem inumeras utilidades, incontaveis aplicacoes e pode-se dizer que praticamente, para cada uso, ha uma formulacao diferente de cera. Diferentes ceras em diferentes proporcoes, com ou sem uma infinidade de adesivos como oleos, vernizes, secantes, etc., sao oferecidas industrialmente ou preparadas oficinalmente para um vasto leque de empregos. Aqui, na esfera de fazer cera em casa, nos interessam basicamente tres: uma cera animal, a de abelhas, uma vegetal, a cera de carnauba, e uma mineral, a parafina.
Cera de abelha





A cera de abelhas pura e' apresentada mais frequentemente em blocos, sua cor varia de amarelo claro a marron profundo; e' macia e bem maleavel, so um pouco pegajosa e derrete ao redor de 63°C.






A cera de carnauba bruta e' usualmente comercializada em escamas, a cor varia do creme palido a um denso amarelo sujo; e' muito dura (mais dura do que concreto!), nada pegajosa, e derrete ao redor de 85°C. E' praticamente insoluvel na temperatura ambiente.

Cera de carnauba



A parafina vem comumente em blocos, e' branca, nao tem cheiro, e' relativamente macia, quebradica, pouco pegajosa, e derrete entre 50 e 70°C.

Parafina


A mistura dessas tres ceras em partes iguais em peso e' certamente a mais consagrada das formulacoes de cera para marcenaria, resultando um produto capaz de oferecer excelente cobertura, otima protecao e um acabamento brilhante. (E mesmo, com pequenas 'regulagens' na composicao, suficientemente flexivel para varios outros usos alem de acabamento.)

Em essencia, a maneira mais simples (tanto quanto eu saiba) de preparo consiste em liquefazer as ceras e, entao, adicionar um solvente ate obter-se a consistencia desejada.

Existem, pelo menos no mercado do Primeiro Mundo, equipamentos especificos para se derreter cera, como o ilustrado na foto `a esquerda. Talvez nao tao pratico, nem tao seguro, mas certamente bem mais barato, e' utilizar-se um banho-maria. Derretidas e bem misturadas as ceras no banho-maria, acrescenta-se entao solvente para alcancar-se a consistencia desejada do preparado quando frio, mistura-se bem, e fim.

Entre os varios solventes possiveis de ser utilizados, os de emprego mais comum sao aguarras, querosene e gasolina. Todos eles devem ter ponto de ebulicao acima de 100°C, para nao haver o risco de ferverem no banho-maria — o que representaria monumental risco de incendio. Alias, mesmo se obvio nunca e' demais lembrar: tanto as ceras, como ainda mais os solventes, sao altamente inflamaveis e, se possivel, nao se deve aquece-los com chama aberta. Em se usando chama aberta, e' muito aconselhavel deixar por perto equipamento antichamas.

Pessoalmente eu uso fogao a gas, com chama aberta portanto, e sempre que vou derreter cera deixo o extintor de incendio do carro ao lado, pronto para uso (nao custa nada, e pode representar uma IMENSA economia!). Coloco uma vasilha metalica dentro do banho-maria preparado em uma panela, adiciono as ceras devidamente pesadas e vou mexendo com um sarrafinho ate obter um liquido homogeneo. Apago o fogo, e entao adiciono terebintina, que e' o solvente que eu prefiro, mexendo sempre ate homogeneizar bem. Em seguida, despejo a cera liquida em um recepiente que feche hermeticamente, deixo aberto ate esfriar, e entao fecho.

O padrao, como mencionado, e' utilizar o mesmo peso das tres ceras. Um pouco mais de parafina, se desejado um pouco mais de brilho com polimento manual; mais cera de carnauba se for ser usada politriz eletrica (a cera de carnauba da um brilho excelente e duradouro, mas e' dura demais para ser polida `a mao). A quantidade de solvente para atingir-se a desejada consistencia vem da experiencia. Se ficar muito mole, e' deixar aberta e ir mexendo para o solvente evaporar; se muito espessa, e' adicionar um pouco mais de solvente e mexer.


Assim como ha imensa variedade na formulacao de cera, tambem ha nos metodos de preparo. Nao tenho qualquer pretensao de conhecer sequer parte consideravel deles, muito menos de saber das exatas vantagens deste ou daquele. Com sua vasta oferta de informacao os mecanismos de busca da Rede poderao atender `a curiosidade e ampliar os conhecimentos dos interessados ate a profundidade desejada. Minha sugestao e' iniciar produzindo pequenas quantidades, umas poucas dezenas de gramas. E ir experimentando.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Tupia na mesa — A Altura da Fresa

Como mencionado na postagem anterior, a tupia de mesa tem duas setagens: a distancia da guia, e a altura da fresa. A distancia da guia `a fresa determinara a profundidade do corte no eixo horizontal, e a altura da fresa acima do tampo, a profundidade do corte no eixo vertical. Se a setagem da distancia da guia em geral e' um processo simples, intuitivo, setar a altura da fresa pode ser uma longa historia...

Para comeco de conversa, ha dois tipos fundamentais de tupias de mao.
Makita 3601B

Em primeiro lugar — ate porque foram os primeiros modelos a ser desenvolvidos, logo apos a I Guerra Mundial — temos as tupias de base fixa, que regulam a altura (ou profundidade) da fresa movendo, usualmente atraves de algum mecanismo de rosca, o motor para cima ou para baixo por dentro da base e entao travando a altura. Embora haja inumeros fabricantes mundo afora produzindo diferentes modelos de tupias com base fixa, no limitadissimo mercado de pindorama (excetuadas as tupias laminadoras que, sim, tem base fixa, mas por sua baixa potencia em geral nao se prestam para montagem em bancada) ha apenas um modelo disponivel, a Makita 3601B. (Nesse modelo, a regulagem da altura da fresa e' efetuada girando aquele anel verde ate a fresa alcancar a altura desejada, e ahi travando o ajuste com o parafuso.)
ELU MOF 98
Um dos primeiros modelos fabricados pela
industria que, em 1949, inventou a tupia de colunas

Pelo final da decada de 40 do seculo passado, foi desenvolvido e comercializado o outro tipo, a tupia de colunas, tambem chamada de mergulho, que oferece nao apenas uma regulagem mais precisa e repetivel da altura da fresa, mas tambem seguranca bem maior na operacao e tem a fundamental vantagem de permitir que a altura da fresa possa ser variada, para mais ou para menos, mesmo com a maquina em operacao. Este tipo de tupias e' feito para ser operado com ambas as maos — o que garante melhor controle e maior seguranca na operacao — e a altura da fresa pode ser aumentada simplesmente soltando a trava e empurrando o corpo da tupia contra a base. Isto fara o corpo deslizar pelas colunas, mergulhando mais a fresa para alem da base. Esse processo pode ser efetuado com a maquina em operacao, e o curso pode voltar a ser travado em qualquer ponto, a qualquer momento. O final do curso e' estabelecido por um batente regulavel com precisao que determinara a maxima altura a que a fresa pode ser exteriorizada. A qualquer momento, soltando a trava e relaxando a pressao contra a base, um sistema de molas fara retornar o corpo da tupia, recolhendo a fresa. Adicionalmente, os modelos mais modernos de fresa de mergulho dispoem ainda de uma regulagem fina da profundidade da fresa, assegurando precisao na faixa de milesimos de milimetro.

Mas se, com uma vantagem aqui, uma limitacao ali, os sistemas de regulagem da altura da fresa funcionam a contento nas tupias de mao usadas na mao, quando colocadas na mesa, de cabeca para baixo, a coisa muda de figura. Pela localizacao sob a mesa a visao e o acesso ficam prejudicados, o operador tendo de se curvar ou abaixar para acessar a ferramenta; o giro de 180 graus altera totalmente a ergonomia dos controles dificultando seu uso, e por ahi vai. Alem de dificuldades no acesso e na utilizacao dos controles, a inversao do posicionamento ocasiona obviamente inversao no sentido em que a gravidade se exerce, o peso que antes ajudava agora atrapalha. De fato, a inversao gera tantos inconvenientes e dificuldades que para efetuar os ajustes (e a troca de fresas) e' mais facil e mais rapido remover a tupia do encaixe, coloca-la sobre o tampo da bancada, efetuar os ajustes e entao recoloca-la.


Todavia a ideia de colocar a tupia de mao invertida em bancada visa facilitar o uso da ferramenta, nao complicar, e isso de ter de tirar e recolocar a tupia a cada setagem, ajuste e/ou troca de fresas por certo nao e' uma facilitacao, mas sim uma enchecao de saco! O engenho criativo dos usuarios e da industria sendo o que e', em tempo um vasto elenco de diferentes metodos e maneiras foi desenvolvido para permitir operar a tupia na bancada sem o desconforto e a perda de tempo de ter de remove-la a cada ajuste. Desconsiderando — certamente nao por inuteis, mas por excessivamente numerosas — as incontaveis solucoes 'caseiras', vejamos algumas implementacoes industriais mais ou menos consagradas...

Provavelmente o metodo mais consagrado para ajuste de profundidade da tupia por cima da mesa e' o uso de elevadores. Como as tupias de base fixa podem ter facilmente o motor removido da base, os elevadores sao feitos com encaixes que permitem fixar esses motores, tanto os mais potentes, de 3,25CV, como os menores, de 2,5CV. Um sistema de rosca acionado por uma manivela encaixada desde o topo da mesa baixa e ergue o elevador e o motor a ele preso — e usualmente pode erguer tanto que exterioriza para acima do tampo as porcas de aperto da pinca, permitindo assim com muito mais conforto para o usuario a troca de fresas por cima da mesa.

Elevador Unilift, da Woodpeckers,
que aceita inclusive tupias de mergulho

Pesquisas e desenvolvimentos de novas variantes de elevadores nao cessaram, como o demonstram por exemplo o novo modelo Unilift, da Woodpeckers, que utiliza subplacas que permitem adaptar-lhe qualquer modelo de tupia, inclusive as de mergulho, e  o modelo PowerLift, da MLCS, com acionamento eletrico, eletronicamente controlado.

Desnecessario dizer que no nosso mercado nao iremos encontrar `a venda, nem tupias de base fixa, nem motores avulsos, muito menos elevadores de tupia. Para a maioria de nos, sem acesso aos mercados exteriores resta praticamente como unica opcao utilizar tupias de colunas.
Elevador eletrico PowerLif, da MLCS

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O primeiro parametro na escolha de uma tupia de  mesa e' a potencia: quanto maior, melhor. Depois, tratando-se de tupias de colunas, que tenha regulagem fina da profundidade, a mais ampla e mais precisa possivel. E entao, que seja facil efetuar (e reverter) as modificacoes necessarias para podermos bem usa-la na mesa.

A primeira, a mais necessaria — de fato, no meu entender, indispensavel — modificacao que teremos de efetuar em uma tupia de mergulho para bem a usarmos na mesa e' remover-lhe as molas. Tentar utilizar na mesa uma tupia com as molas e' receita certa para dor de cabeca. A forca necessaria para erguer a tupia tera de vencer o peso da maquina somado `a tensao das molas e certamente essa forca sera suficiente para arrancar a placa de seu encaixe, a menos que esteja aparafusada, e bem aparafusada. Ou entao teremos que tentar prende-la no lugar com o queixo enquanto usamos ambas as maos para empurramos a tupia para cima e tentamos estabiliza-la a uma certa altura contra a constante pressao das molas. Como dizem os Grandes Irmaos, "eu estive la, fiz isso". E posso assegurar que nao, nao e' nada engracado, ou eficiente. Dois, tres dias disso e, acreditem, procurar na Rede o metodo de remover as molas e' inescapavel.

E sim, e' bem facil encontrar na Rede a maneira de tirar as molas de praticamente qualquer marca e modelo de tupia de colunas. Geralmente e' um processo nao muito complicado e, nas boas marcas, nao implica em perda de garantia.
Bosch GOF 2000 CE
tem um botao na base que ativa e desativa as molas

Alias, algumas boas marcas como a Bosch e a Triton por exemplo, incluem a remocao ou desativacao das molas como recursos disponiveis em alguns de seus modelos, ja contemplando a possibilidade de seu uso em mesa (embora nenhum desses modelos — surpresa!! — esteja disponivel por pindorama).
Triton TRB001
e' so afrouxar a tampa preta no topo `a direita
e a mola sai

Uma outra modificacao, nao indispensavel mas bastante util, e' remover, quando existir, a mola da trava. Isso evitara ter de usar uma mao, ou um dedo, apenas para soltar a trava a cada vez que se quiser reajustar a profundidade da fresa e, mais importante, permitira que se possa elevar a tupia pelo centro, empurrando com apenas uma mao.

Com essas duas modificacoes a regulagem da altura da fresa na operacao em mesa de uma tupia de colunas se torna eficiente e relativamente facil.

Ha ainda, claro, inumeros projetos de jigs e acessorios desenvolvidos por usuarios, como ha varios itens disponibilizados comercialmente, tudo visando aumentar essa facilidade.

Nao testei todos, nem perto, mas dos poucos que testei houve um acessorio que realmente me pareceu facilitar significativamente o processo:
a PlungeBar, da WoodRat

http://www.woodrat.com/plungebars.html
que infelizmente tambem nao esta disponivel no nosso lamentavel mercado mas imagino possa facilmente ser, mm, reprodutivel..




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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Tupia na mesa — A Guia


Usa-se uma guia na mesa de tupia para efetuar-se cortes retos.

Pode ter uma construcao extremamente simples, nada mais que uma mera ripa de compensado fixa ao tampo por grampos, ou pode ser um engenho altamente complexo. Tudo pode variar — e de fato parece haver um projeto diferente de guia para cada construtor, industrial ou privado — mas, alem de uma fixacao rigida quando em uso, dois fatores serao sempre essenciais e mandatorios na guia: sua face deve ser absolutamente reta, e em perfeito esquadro com o tampo.

A distancia da guia `a fresa e' um dos dois parametros ajustaveis na mesa de tupia (o outro sendo a altura da fresa acima do tampo) e determinara a profundidade do corte no eixo horizontal. Uma fixacao firme garantira essa distancia permaneca imutavel durante todo o(s) corte(s). A guia deve ser absolutamente reta para que igualmente o corte saia absolutamente reto. E em perfeito esquadro com o tampo quer dizer perfeitamente paralela ao eixo da fresa, assegurando um corte exato e repetivel. Isso e' o essencial. O resto sao detalhes.

Mas, ja se disse, o inferno esta nos detalhes...

Uma guia extremamente simples como aquela guia ilustrada na foto acima com certeza sera efetiva, capaz de bem atender a consideravel parcela dos inumeros procedimentos que podem ser realizados em uma tupia de mesa. So que uma consideravel parcela nao e' tudo. E alem disso ela e' falha no quesito repetibilidade; uma vez modificada a distancia daquela guia `a fresa, sera muito dificil voltar `a distancia anterior com precisao significativa. E se uma certa imprecisao pode ate ser relevada em certos usos, em outros pode ser um problemao...


Por isso, para ampliar-se o leque de procedimentos passiveis de ser efetuados na tupia de mesa e tambem a precisao de seu posicionamento, a guia foi sendo modificada nisso e naquilo, recebendo acessorios aqui, implementos ali, adaptacoes acola.

Se e' certo nenhum sistema de guia podera clamar possa fazer TUDO — ate porque varios procedimentos em tupia de mesa sao feitos SEM guia — muitos usuarios e diversos fabricantes tem procurado desenvolver sistemas os mais completos possivel, como o Super Sistema LS da INCRA (http://goo.gl/f5WVI) ilustrado na foto ao lado.


A versatilidade da tupia e' enorme, a variedade de operacoes que podem ser feitas com seu uso, imensa. No que tange a como configurar uma guia, o complexo equilibrio entre custo, simplicidade, capacidade operacional e facilidade de uso havera de ser como sempre equacionado, primeiro pelas necessidades funcionais, depois pelo engenho criativo, e entao pela capacidade de compra do usuario.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Tupia na mesa — A Placa



Aparafusar a base da tupia diretamente ao tampo e' certamente a opcao mais simples de fixacao da tupia `a mesa, mas essa simplicidade implica em limitacoes como, por exemplo, a espessura do tampo reduzira a altura a que a fresa pode ser elevada, remover a tupia da mesa (para troca de fresas, ajustes, regulagens, limpeza, etc.) sera um processo consideravelmente demorado, o peso da tupia muito provavelmente produzira uma 'barriga', um afundamento no topo. Adicionalmente, dado que para obter-se nos cortes resultados consistentes, repetiveis, a fresa devera sempre estar em exato esquadro com o plano da mesa, esse esquadro tera de ser checado e acertado a cada vez que a tupia seja utilizada. A maneira mais eficiente de evitar-se esses problemas e' utilizar-se uma placa para adaptar a tupia na mesa.

O material da placa devera ser absolutamente plano e tao rigido quanto possivel, os lados perfeitamente paralelos. Na pratica o que mais se utiliza sao laminas de aluminio, aco ou polimeros rigidos, como o fenolico, lexan (policarbonato), acrilicos, etc., cortadas em retangulo e dimensionadas geralmente ao redor de 25x30cm, e com espessura suficiente, variando conforme o material, para que nao sofram qualquer deformacao pelo peso da tupia. (Embora usualmente as placas sejam feitas com formato retangular, evidentemente nada impede o uso de outros formatos, como redondos, ovalados, etc. — embora eu nao consiga ver qualquer vantagem nisso.)  A placa usualmente fixa-se `a mesa por encaixe em um recorte cortado no tampo, e e' muito importante tal encaixe ocorra tao perfeitamente quanto possivel, sem qualquer vao entre placa e mesa, sem ressaltos, sem rebaixos, para que a madeira sendo cortada possa deslizar sem obstrucoes ou desniveis, como igualmente e' importante a placa possa ser removida do encaixe com facilidade quando for necessario acessar a tupia e com igual facilidade possa ser recolocada, sem perder os alinhamentos. A tupia sera firmemente aparafusada `a placa de forma a garantir um perfeito esquadro entre o eixo da tupia e a superficie da placa.

A precisao no esquadro da fresa e a perfeicao no alinhamento das partes serao tao mais necessarios quanto mais precisos tenham de ser os cortes desejados. Em um processo mais grosseiro, como recortar bordos em um rodape por exemplo, evidente que variacoes de milimetro passarao desapercebidas, nao afetarao o resultado. Ja em cortes mais delicados, como sambladuras, a margem de erro tera de ser na faixa de milesimos de milimetro, exigindo ajustes perfeitos.
No topo, disco com diametro padrao; no centro, com encaixe para
guias de corte; embaixo, para ser furado com qualquer diametro desejado
Obvio, no centro da placa havera uma abertura circular para dar passagem `a fresa. Idealmente, o diametro desse orificio sera pouquissimo maior que o diametro da fresa, tanto para evitar um vao maior entre fresa e placa que possa interferir na precisao dos cortes, como para reduzir a quantidade de serragem que caia para baixo, sobre a tupia. Como os diametros das fresas variam, e' desejavel que o orificio de passagem igualmente possa variar; por isso usualmente o orificio central das placas esta preparado para receber discos adaptadores. Esses discos permitem nao apenas variar o diametro do furo da fresa, como podem permitir a adaptacao de outros redutores, guias de corte, etc.
Conjunto de guias de corte











Afora o encaixe justo e proprio peso da tupia existem variados metodos, tanto para assegurar-se a placa nao fique nem saliente nem afundada, como para garantir a fixacao da placa no seu leito. O metodo mais empregado para garantir o adequado nivelamento da placa e' atraves de parafusos ao nivel da borda da placa, rosqueados nesta ou engastados na mesa. Para melhor asseverar a fixacao da placa, o mais comum e' utilizar-se imas, embora haja quem prefira parafusos.

Adicionalmente e' comum, e desejavel, haja nas proximidades do orificio central da placa provisao para encaixe do pino de seguranca, utilizado como apoio quando se efetuam cortes curvos, sem guia na mesa.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Tupia na mesa — O Tampo


Quem adquire uma tupia manual tende a logo, logo ficar surpreso e entao deliciado com a sua inacreditavel versatilidade, suas mil e uma utilidades. E a seguir tende a descobrir que mais de 90% das operacoes que podem ser feitas com a tupia manual sao feitas melhor e com muito mais facilidade utilizando-se a tupia montada invertida em uma mesa.

Ou seja, cedo ou tarde, geralmente muito cedo, quem tem tupia vai querer monta-la em bancada.

Nos paises civilizados do Primeiro Mundo, se talvez nao a mais eficiente, certamente a opcao mais simples, mais facil e usualmente a mais barata seria comprar uma bancada pronta. Ha duzias de marcas e/ou modelos... Aqui em pindorama, tanto quanto eu saiba so ha dois modelos disponiveis comercialmente (http://goo.gl/bQYt1 e http://goo.gl/CQGXb) mas, sao dificeis de se achar `a venda, na minha sempre desconsideravel opiniao deixam bastante a desejar em termos de qualidade e desempenho e, certamente, serao tudo menos baratos. De onde se deduz que, entre nos, quem deseja uma bancada onde colocar sua tupia tem como melhor, e frequentemente o unico, caminho construir uma.

Nao sera dificil encontrar projetos de bancadas para tupia na rede. Pelo contrario ha centenas, se nao milhares de diferentes versoes disponiveis em incontaveis sites, em inumeros idiomas. Optar entre tamanha variedade e' que e' o problema: afinal, o que e' importante, o que e' superfluo?

Como diria o velho Jack, alem de muita calma, nessa hora o melhor e' irmos por partes. E claro, como em toda a mesa, a primeira parte a se considerar e' o tampo.

    A primeira e a mais importante consideracao quanto ao tampo de uma bancada de tupia e' que devera ser suficientemente rigido e o mais absolutamente plano possivel. Sem ondulacoes, empenamentos, torcoes. Plano. Embora haja no exterior alguns modelos comerciais de mesa para tupia manual com tampos metalicos semelhantes aos das tupias estacionarias industriais — predominantemente de ferro fundido ou aluminio injetado — na nossa realidade creio eu ser o MDF o melhor material `a nossa disposicao para fazermos o tampo porque, em funcao da propria tecnica de sua fabricacao, o MDF e' certamente o mais plano dos paineis de amadeirados ou de madeira.


    A seguir temos de considerar as dimensoes do tampo. Em tese, quanto maior, melhor, pois quanto maior o tampo, maior o tamanho da madeira a ser trabalhada que podera ser suportada com estabilidade, sem problemas. Em teoria, a unica limitacao nas dimensoes da mesa sera a distancia da borda ate a fresa, pois obviamente esta devera ficar necessariamente ao alcance da mao. Ha de se ponderar porem, nao raro o espaco disponivel na oficina sera limitado, ou mesmo inexistente para uma bancada de largas dimensoes e, sem duvidas, mesmo uma bancada pequena sera melhor que bancada nenhuma, razao por que sao comuns os projetos, inclusive industriais, de mesas construidas para serem utilizadas em cima de outra mesa.


    No entanto, com uma densidade ao redor de 800 kg/m³, o MDF e' pesado. E e' pouco estruturado, nao tem veios, 'embarriga' facil. Evidente que em uma pequena mesa isso nao sera problema, mas se for contemplado um tampo de maiores dimensoes esse problema necessariamente devera ser prevenido. Mais facil do que estruturar o suporte do tampo para evitar o afundamento, uma abordagem mais simples e mais eficiente me parece simplesmente colar o MDF a um painel de compensado, ja que o compensado, se certamente nao tem a planura do MDF, em compensacao tem, peso a peso, a rigidez do aco e, alem disso, e' bem menos denso, mais leve do que o MDF.

    E ahi, independente de utilizar-se apenas MDF para bancadas menores ou um 'sanduiche' de MDF e compensado para maiores, e' altamente recomendavel que o tampo seja revestido nos dois lados, em cima e em baixo, com formica. Em cima para proteger o tampo de pancadas, derramamentos de cola, solventes, etc., e oferecer uma superficie que permita um melhor deslizamento, e em baixo para evitar o empenamento que usualmente ocorre com laminacao unilateral.

    Desnecessario talvez, mas vale lembrar que essas consideracoes aplicam-se especificamente `a construcao de um tampo pressupondo que nao haja material disponivel que possa ser reaproveitado para essa finalidade. Sem duvidas, desde que bem plano ou aplainado e suficientemente rigido, qualquer material pode ser empregado na confeccao de um tampo.

    segunda-feira, 16 de maio de 2011

    Implicancia

    Quando eu comento essas coisas, em geral as pessoas ficam me olhando meio desconfiadas, provavelmente imaginando quao frouxos andam meus parafusos. Mas que `as vezes as coisas tiram de implicar com a gente... ah, tiram. Tiram mesmo.

    Primeiro, foi a serra de fita. Uma semana, pouco mais, afastado da 'oficina' e as maquinas parece que ficaram irritadas com o abandono. A guia da mesa trincou na troca da lamina da serra, tive que cortar uma nova. Tudo bem. Acontece. Divido em quatro o bloco de cocobolo ha tempos nos meus guardados, querendo ver que cara mesmo tem essa madeira que eu nunca tinha usado, levo os sarrafinhos para meu microtorno para cortar umas colunas esguias, pensando em usa-las depois possivelmente como decoracao para uma caixa em madeira clara, constrastante. Toca o telefone.

    Ahi, era a vez do torninho. Depois de arredondar o primeiro sarrafo, um barulho estranho, de coisa raspando la no miolo da maquina. Para tudo, sacode, sopra para tirar uma possivel serragem, some o ruido. Termino a primeira coluninha, inicio o arredondamento do segundo pau e, pronto: volta o ruido. Nao sumiu. Toca o telefone. Dane-se. Nao vou atender. Vou e' desmontar essa porcaria!

    Manchinha superficial de ferrugem no eixo (normal: afinal no portinho a umidade relativa NUNCA baixa de 80%), um parafuso solto na carcaca do motor, montes de serragem colada nos rolamentos. Bombril, parafuso apertado, tudo limpo e relubrificado, remonto e ligo, o ruido foi-se. Volto a tornear, o telefone toca. Azar. Mais um para a secretaria eletronica. O telefone ainda tocando e... o ruido volta.
    Mas que droga!!

    Desmonta tudo de novo. Com a barriga da maquina aberta, o triparedo todo `a mostra, liga so o motor. Silencioso, silencioso. Engata a correia no eixo, liga de novo. Isso: rolamento chiando. Banho de WD-40, gira, gira, gira, seca, seca, seca, graxa liquida em spray. Liga de novo e aleluia! Foi-se o ruido.

    Estou nos finalmentes da segunda coluna quando ele volta... Paro e considero se devo fazer ajustes finos, utilizando uma chave portuguesa...
    Como? Que chave portuguesa? Ora... Martelo e talhadeira!!
    Toca o telefone.

    Nao, nao. Melhor deixar para amanha.
    Quem sabe, param de implicar?

    Fui tomar uma cervejinha e, como calmante, fotografar as duas coluninhas que consegui tornear, mesmo contra a vontade das maquinas:



    Amanha... Sera outro dia — como ja cantou alguem.

    terça-feira, 10 de maio de 2011

    Esquadro

    Sempre bom lembrar: toda regra tem excecao, inclusive esta.
    Ou seja, o que se segue nao pretende, nem de perto, esgotar o assunto...

    Se nao a mais, uma das mais importantes atividades em marcenaria e' aparelhar a madeira o mais perfeitamente possivel com os seis lados quadrados — cada face paralela `a oposta e a exatos 90° das faces adjacentes, um paralelepipedo perfeito — e na exata medida desejada. O que vai demonstrado no video abaixo e' talvez o metodo mais simples e facil de faze-lo, em sete passos:

    1. Cortar a tabua, de topo, em um comprimento aproximado (um pouco mais longo) do desejado, com serra de esquadria ou treno na serra de mesa;
    2. Aplainar um dos lados largos, na plaina desempenadeira;
    3. Aplainar o outro lado largo, no desengrosso, ate a espessura desejada;
    4. Aplainar um dos lados finos, em esquadro com o largo, na plaina desempenadeira;
    5. Ripar o outro lado fino na serra de mesa, na largura desejada;
    6. Esquadrejar um topo, na serra de esquadria ou treno;
    7. Cortar, do mesmo modo, o outro topo no comprimento desejado.


     Ha diversas outras abordagens possiveis, alterando a ordem ou mesmo as ferramentas empregadas, e por certo nao ha consenso qual maneira a melhor; vai um pouco de preferencia pessoal, um pouco de disponibilidade de equipamentos, um pouco de adaptacao `a realidade especifica de cada caso. Mas, da maneira que for, o resultado desejado sera sempre o mesmo...














    Nao importando qual metodo e/ou ferramentas empregados, para que o resultado final possa apresentar a precisao desejavel, e' absolutamente fundamental que todas as ferramentas e maquinas empregadas no processo estejam perfeitamente reguladas. E dessas regulagens e' absolutamente critico as guias das maquinas/ferramentas estejam firme e exatamente postadas a exatos noventa graus com as mesas.


    Dai que antes de inciar-se o processo de preparo da madeira, deve-se sempre aferir rigorosamente o exato posicionamento das guias, empregando-se um bom esquadro, aferido.





    Para aferir um esquadro — algo indispensavel, tanto considerando-se a frequencia assustadora com que esses instrumentos ja vem da loja fora de registro, como o fato que acidentes de percurso como quedas, marteladas, etc., podem alterar sua precisao — o metodo mais facil que eu conheco e':


    - utilizando um bordo bem reto, colocar o cabo do esquadro contra esse bordo e tracar uma linha com um lapis ao longo da lamina (A, na figura abaixo);


    - feito isso, girar o esquadro de modo ao cabo ficar na posicao oposta `a que estava (B) e, posicionando a lamina no inicio da linha previamente tracada (C), voltar a tracar uma outra linha ao longo da lamina. Se ambas as linhas concidirem perfeitamente, o esquadro estara aferido. Se nao coinciderem, estiverem formando um angulo, o esquadro esta fora de registro.

    sábado, 7 de maio de 2011

    Tudo se transforma

    (Clique nas imagens para, querendo, ve-las ampliadas.)

    Em mais uma etapa da operacao de metamorfosear o que um dia foi a churrasqueira em uma 'oficina domestica', a churrasqueira propriamente esta sendo transformada em camara para pintura a pistola...

    A primeira etapa foi, evidentemente, aplicar multiplas vezes o soprador para remover o maximo possivel do po e fuligem acumulados nas paredes. Na verdade, inicialmente considerei uma lavagem com agua e sabao mas na balanca do custo/beneficio — talvez, pode ser, com um dos pratos "dopados" pela preguica, hehe — acabei concluindo nao valeria a pena.


    A seguir da sopracao, cortei uma chapa de compensado de 20mm para cobrir o que foi a fornalha (espaco atualmente utilizado como, mm, arquivo-morto, digamos; um deposito para esquecimentos) e servir como tampo, movel, para a bancada de pintura.

    Nesse tampo adaptei uma mesa rotativa igualmente em compensado (10mm), utilizando um carretel giratorio.













    Tanto o tampo como a mesa rotativa receberam duas generosas camadas de cera em todas as faces, como protecao evidentemente, e tambem para facilitar a limpeza quando for o caso.

    A seguir, a ideia e' efetuar a pintura das paredes, mas ainda nao me decidi exatamente qual tinta utilizar. Estou pendendo para tinta acrilica, mas ainda nao consegui afastar a hipotese de utilizar impermeabilizantes de alvenaria, ou um verniz, ou mesmo tinta epoxi. Alias, se alguem tiver alguma sugestao a enviar, o comentario certamente sera apreciado.

    Entao, apos feita a pintura, a instalacao eletrica atualmente existente para a lampada na chamine sera aproveitada para instalacao de um exaustor (na verdade, um ventilador velho...).

    E entao — o' vida ingrata! — estarei na angustiante, quase intoleravel circunstancia de TER de fazer algum movelzinho que possa ser pintado a pistola para inaugurar as instalacoes...

    quarta-feira, 4 de maio de 2011

    Faccoes

    (Como sempre, em querendo clique nas imagens para ve-las em tamanho maior.)

    Como se pode ver registrado em consideravel volume de literatura publicada e em inumeros sites na Internet, existem pelo menos dois, chamemos assim, grandes cismas na marcenaria; um desde a  Segunda Revolucao Industrial, o outro desde a introducao dos paineis amadeirados.

    A Revolucao Industrial, na transicao do sec. XVIII para o sec. XIX, iniciou-se na Gra-Bretanha pela progressiva mecanizacao da industria textil, propulsionada pela utilizacao de maquinas a vapor. O monumental aumento na produtividade resultante espalhou o processo mundo afora, afetando praticamente todas as atividades produtivas da humanidade inclusive, claro, a marcenaria. Ja nas primeiras decadas do sec. XIX haviam-se estabelecido no mundo industrializado diversas marcenarias mecanizadas — algumas das quais surprendentemente sobrevivem ainda quase exatamente como eram entao, como exemplificado no video do link abaixo (infelizmente, e como quase sempre, em ingles):

    http://www.pbs.org/woodwrightsshop/video/2600/2612.html

    Entao, pela metade do sec. XIX, com o desenvolvimento do motor de combustao interna e da geracao de energia eletrica desencadeia-se a Segunda Revolucao Industrial que ocasionou — entre outras tantas coisas menos interessantes como por exemplo a industria automobilistica, a economia capitalista moderna, e que tais — o surgimento de ferramentas eletricas para a marcenaria.

    Do ponto de vista da industria nunca houve quaisquer duvidas em abracar alacremente o uso de maquinas, eletricas ou a vapor. Pelo contrario, quando determinadas tecnicas, mesmo consagradissimas, eram inadequadas ou pouco propicias `a automatizacao, eram trocadas sem hesitar por outras que fossem. E se necessario inventar novas tecnicas mais favoraveis, ou mesmo exclusivas para empregar-se com maquinas... pois que inventadas fossem. Exemplo tipico, a emenda Knapp ou emenda em pino e meia-lua:




    Esta emenda foi inventada em 1867 porque entao nao havia nenhuma maquina capaz de eficientemente produzir a classica sambladura de malhete em cauda-de-andorinha para confeccao de gavetas.


    Obviamente projetada para ser facilmente executada por maquinas com ferramentas rotativas, foi muito popular em moveis produzidos industrialmente nA Matriz de 1870 ate 1900: enquanto um artifice altamente especializado era capaz de aprontar no maximo vinte gavetas por dia utilizando a tecnica classica, uma maquina utilizando a emenda Knapp podia produzir bem mais de duzentas. Na virada para o sec. XX no entanto, nao apenas houve o desenvolvimento de maquinas capazes de efetivamente efetuar a classica asa-de-andorinha, como o surgimento do movimento cultural chamado "Colonial Revival" que celebrava as obras construidas no estilo de quando os Estados Unidos foram fundados, o que acabou levando a emenda Knapp para o quase total esquecimento onde hoje jaz.






    Embora evidentemente o predominio da construcao industrial em marcenaria nunca mais arrefecesse, um numero significativo de marceneiros autonomos, diletantes e hobistas sempre permaneceu. Como, mesmo comercialmente, sempre houve quem preferisse moveis feitos por marceneiros a moveis produzidos industrialmente. E, la pelas ultimas decadas do sec. XX, iniciou-se um ideario e logo um movimento tradicionalista entre os marceneiros.

    Com fulcro na ideia central de que o apogeu, o cume, o maximo em marcenaria havia sido atingido com as tecnicas em uso ate 1875, o movimento amealhou consideravel numero de adeptos. Esse cisma persiste; de fato essa faccao tradicionalista cresceu e continua crescendo tanto que, nos dias de hoje, um numero consideravel de praticantes da marcenaria pode ser incluindo no rol de seus crentes, praticantes ou simpatizantes — mesmo que muitos ignorem totalmente a historia e as ideias por tras. Essencialmente, sao artifices que renegam o uso de maquinario eletrico.

    Mmm... Bem... Nao exatamente.



    Ainda que haja sim uns poucos puristas que ortodoxamente recusam-se totalmente a empregar quaisquer tecnicas ou equipamentos que nao existissem ate 1875, a maioria em verdade nao renega totalmente usar maquinas eletricas. Usam-nas, quando indispensavel ou gritantemente conveniente, mas preferem sempre que possivel empregar ferramentas manuais no seu labor.


    Logicamente, parece dificil entender por que alguem va preferir `as vantagens e facilidades das ferramentas eletricas utilizar tecnicas e ferramentas que implicam em mais trabalho, mais tempo, mais custo e/ou menor precisao. Esmiucando-se bem, usualmente nao e' possivel apontar para a preferencia um motivo nitido, especifico; quase sempre se resvala para gosto, costume, afetos...



    E e' bem por isso que, como em todo cisma, e' tao dificil, quando nao impossivel, se argumentar. Nao e' coisa para tratar com logica. Como diz um amigo meu, essas coisas de gostos, cores, amores... e' como mulher. Nao se discute. Se abraca.

    segunda-feira, 2 de maio de 2011

    Sobre serra e coice - breves comentarios

    Todo mundo sabe que a serra de mesa (tambem chamada serra circular de bancada) e' uma maquina perigosa. Em pindorama, ou nao mantemos estatisticas, ou elas nao sao confiaveis. NA Matriz, pelo contrario, eles tem estatisticas para tudo. Por la, onde ha ao redor de 650.000 serras de mesa so em uso nao profissional, elas sao as maiores responsaveis por acidentes com marceneiros que os enviem `as ER (Sala de Emergencia, Emergency Room). Dos acidentes provocados por serra circular os mais notorios e chamativos sao certamente os cortes causados pela lamina, desde laceracoes superficiais ate amputacoes. Mas os mais frequentes e os mais graves, no entanto, sao os produzidos por coice: desde pequenas contusoes ate grandes fraturas, cegueira e, mesmo, morte.

    Alem de cuidados basicos, como jamais usar roupas folgadas e/ou mangas compridas e/ou joias ou relogios de pulso, etc., quando operando maquinario (que podem ser presos pelas partes moveis da maquina e 'puxar' aquela parte do corpo do operador contra o polo ativo da maquina), para prevenir-se de acidentes com a lamina diretamente as medidas preventivas sao faceis de entender. A mais segura providencia e' NUNCA levar qualquer parte do corpo a uma distancia menor de 20 cm da lamina. Adicionalmente, a lamina deve sempre operar coberta por uma solida protecao, preferivelmente transparente.

    Para adequadamente prevenir-se do coice, e' preciso entender como ele ocorre.

    Em uma lamina de serra circular de 10 polegadas, a mais comumente utilizada em serras domesticas, um dente na periferia da lamina percorre aproximadamente 80 cm a cada giro. Ao redor de 4.000 rpm, isso significa um deslocamento de 3.200 metros por minuto, ou seja, 192 km/h! A acao de corte da serra ocorre quando os dentes da parte anterior da lamina cravam-se no topo da madeira em contato com a serra e, deslocando-se para baixo, 'espremem' a tabua contra a bancada e entao arrancam-lhe um fragmento. O coice ocorre quando, por qualquer motivo, a madeira entra em contato com a lateral ou, pior, o topo dos dentes da porcao posterior da serra. Ali, os dentes correm para cima e, se chegam a cravar-se na madeira, com a forca de tantos cavalos tenha o motor da maquina, inicialmente impulsionam-na para cima, para fora do tampo da mesa da serra, e entao para a frente da maquina, onde esta o operador, provavelmente a mais de 100 km/h!

    Um pequeno pedaco de madeira em alta velocidade atingindo o operador (ou quem mais estiver por perto) pode causar problemas mais ou menos serios, dependendo de onde pegar. No olho, ate um cavaquinho sera coisa seria, razao porque nunca se deve operar maquinario sem oculos de protecao. Agora, uma tabua com varios quilos voando a dezenas de quilometros por hora... e' um projetil mortal!

    Nos dois primeiros videos abaixo os autores produzem intencionalmente coices para demonstrar os potenciais efeitos. O terceiro contem uma exposicao (algo tediosa, para o meu gosto), infelizmente em ingles, sobre os mecanismos produtores do coice e, ao final, igualmente um coice exemplar.







    Os metodos de prevenir um coice dividem-se fundamentalmente em duas taticas: evitar que a madeira entre em contato com os dentes da porcao posterior da lamina e evitar que a madeira possa ser movida para cima e/ou para tras, contra o operador. As implementacoes variam de modelo para modelo, mas em essencia isso e' feito
    - colocando-se um espacador atras e o mais perto possivel da lamina para evitar que o rasgo do corte (kerf) possa por qualquer motivo 'fechar' contra a lamina,
    - utilizando-se garras que so permitam o deslocamento da tabua na direcao do corte e
    - utilizando-se mecanismos que 'prensem' a tabua contra a mesa (pentes, roletes, etc.).

    Evidentemente, embora nao se discutam as vantagens e a necessidade de utilizar-se esses mecanismos de protecao, o mais importante fator de seguranca e' e sempre sera o cuidado do operador em, alem de tomar as devidas precaucoes em operar o equipamento, evitar criar circunstancias que propiciem os acidentes.

    domingo, 1 de maio de 2011

    O preco das coisas

    Devo confessar fiquei algo surpreso ao descobrir que, ha anos, nA Matriz o programa de maior audiencia da rede publica de TV (PBS) e' Antique Roadshow. Essencialmente, toda semana em variadas cidades de todos os estados e' montado um espetaculo, transmitido pela PBS em rede nacional, onde as pessoas sao convidadas a levar suas antiguidades para te-las avaliadas pelos mais renomados experts daquela nacao. Alguns desses experts avaliadores inclusive, por seus meritos pessoais, claro, mas tambem pela grande penetracao do programa, terminaram tornando-se celebridades nacionais como, salientemente, os irmaos gemeos Leigh e Leslie Keno (googlar por "Keno brothers" pode dar uma ideia de quao populares sao...). As antiguidades levadas ao programa serao incluidas em uma de 25 categorias como Arte Asiatica, Relojoaria, Arte Folcrorica, Joalheria, Fotografia, etc. E, claro, Mobiliario — onde justamente brilham os Irmaos Keno.



    Aqui na nossa pindorama, onde cultivar tradicoes, historia — cultura, em geral — nunca foi exatamente um dos pilares mais salientes de nosso arcabouco social, imagino que um espetaculo televisivo desse naipe nao teria maiores probabilidades de conquistar audiencia notavel sob qualquer ponto de vista. Uma pena. Nao so por isso, evidente, mas tambem porque um apropriado substrato cultural influencia diretamente na formacao do preco das coisas; alem do valor intrinsico do objeto, materiais, estetica, mao de obra, etc., o devido enquadramento historico/cultural, incluindo raridade, da peca representa fator usualmente ate preponderante na formacao do preco. E assim, nao so por isso mas tambem por isso, e' pouco provavel que jamais consigamos alcancar um mercado tao rico (em todos os sentidos) ca por nossas paragens.

    Para talvez dar uma ideia, tanto do mercado, quanto do proprio programa televisivo, ahi abaixo links para quatro das avaliacoes. Os extremos: as mais altas e as mais baixas avaliacoes de moveis do arquivo de programas disponibilizado, para se tirar uma temperatura...

    http://www.pbs.org/wgbh/roadshow/archive/200303A01.html
    http://www.pbs.org/wgbh/roadshow/archive/200503A15.html
    http://www.pbs.org/wgbh/roadshow/archive/199707A13.html
    http://www.pbs.org/wgbh/roadshow/archive/200806A24.html